O Início
Todo mundo teve uma noite em que os passos na casa não eram de ninguém conhecido. Mas eram de quem?
O Início
A criança abriu os olhos.
A escuridão dominava o quarto.
A luz se infiltrava através da porta entreaberta, criando sombras distorcidas ao que ela conhecia na claridade.
Escondeu-se debaixo da coberta, seu escudo mágico.
Todos dormiam. Menos ela.
O zumbido contínuo da geladeira na cozinha preenchia o ambiente. Mas eram os estalos dos móveis de madeira que faziam o seu coração disparar.
Os passos perambulantes se iniciaram. A criança ouvia com atenção, na esperança de que em seguida escutasse o ranger da porta do banheiro, a água escorrendo pela pia, ou qualquer barulho que ela soubesse identificar. Mas nenhum som familiar veio. Sua esperança não se concretizou.
Nada que revelasse alguém conhecido. Apenas passos que vagavam. O som abafado vinha dos cômodos dispersos pela casa. Ela temia o momento em que se aproximassem da porta do seu quarto, ainda que jamais ultrapassassem a soleira.
O coração acelerado carregava um presságio: seria mais uma noite de medo.
Lembrou-se da oração ensinada pela avó, que sabia de cor, desde que aprendera as primeiras palavras.
"Santo anjo do Senhor...", tentava rezar, porém nada adiantava.
Sua voz prendia-se na garganta. Apenas um sussurro mudo aos ouvidos. Ainda assim, mantinha as palavras reverberando em sua mente.
"Meu zeloso guardador..."
Cerrou os olhos com força. Como se o que estivesse por vir dependesse da sua visão.
"Não... não... não...", o desespero a dominava.
A claridade que transpassava suas pálpebras a empurrou para dentro de sua mente. Choraria, se pudesse. Chamaria pela mãe. Permanecia presa, incapaz de reagir.
Seu corpo começou a inflar como um balão, ela sabia o que viria depois. E antes que começasse a escorregar para uma presença que desejava manter distante, iniciou a luta para que pudesse se mover.
Ela temia que deixar-se levar pelo escorrego significaria encontrar aqueles que caminhavam na casa. Quem ou o que eram, não desejava descobrir.
O pequeno corpo seguia indiferente à sua vontade. Tentou mover os dedos. Tentou sacudir as pernas. Queria gritar. Nada.
"Se a ti me confiou a piedade divina..."
"... sempre me rege...", sem conseguir falar, pensar representava a única maneira de súplica.
A pele se umedecia de medo.
"não... não... não..."
Insistia em mover-se.
Enfim conseguiu: o grito explodiu de sua garganta, a voz da criança irrompeu sem freio.
— Mãe! — gritou a criança, estremecendo a escuridão ao som do desespero.
No fim de tarde seguinte, como um pêndulo de um relógio cuco, o balanço era sustentado pelas cordas. Envoltas no galho forte, obedeciam aos comandos das perninhas que dobravam e esticavam, elevando o pedaço de tábua ao céu, e de volta à Terra.
Ao céu, e de volta à Terra.
Ao céu, e de volta à Terra.
O tronco retorcido da amendoeira soltava um gemido grave e prolongado. Cedia resignado a cada ir e vir, enquanto o movimento feliz daquele cuco era iluminado pelo alaranjado poente. Não precisava se comprometer com as horas. A ele, bastava apreciar o tempo.
Ao céu, e de volta à Terra.
Ao céu, e de volta à Terra.
As folhas farfalhavam além da ação do vento, sacolejando enquanto seus galhos finos estalavam.
Os longos cabelos que se rendiam à força das perninhas emolduravam o rosto sorridente da criança. Enquanto as pernas subiam ao céu e retornavam à Terra, a mente permanecia lá, nas nuvens.
Na Terra, a amendoeira de copa frondosa garantia o frescor da casa da família. Era modesta, porém contava com dois fatores que a tornavam especial: uma varanda conectada à cozinha e a lagoa a poucos metros da varanda. Na varanda, o cheiro de café se contrastava com o do pescado. Ali seria o lugar das lembranças mais felizes. A lagoa era de onde vinha o sustento da família e o regalo nos dias de calor.
Da varanda, vovó Filó observava o pôr do sol com atenção enquanto tomava café. Analisou a amendoeira que indicava a direção e a intensidade do vento com seus galhos e folhas, enquanto o filho preparava a rede para a pesca da noite. Ao seu lado, Tarrafa, o cãozinho da família, insistia em posicionar sua cabeça nas mãos da senhora, pedindo um carinho sem pressa.
— O fio vai ter uma noite tranquila de pesca. O sol se vai alaranjado — disse Filó ao filho, com seu carinho peculiar, que refletia em suas palavras que eram quase um dialeto. Ela tomou um longo gole de café, observando o céu ao compasso do tum tum tum tum do rabo do Tarrafa, que mantinha a cabeça na mão de Filó. A avó permaneceu pensativa afagando o cão pidão, enquanto o filho colocava a rede no barco fundeado à beira da lagoa. — Mas vem sudoeste daqui uns dia, oia as nuvens rabo de galo.
— Sim mãe, mas pescador vai pra água independente do tempo.
— Mas quem fica na terra firme prefere o tempo bom, pra ter coração em paz — resmungou enquanto caminhava até a banqueta, arrastando os pés cansados, acompanhada por Tarrafa. — Eu que sei das aflição de esperar pai, depois marido, agora fio.
Tum tum tum tum, Tarrafa concordou.
— Miriã! Vem menina! — ecoou da cozinha a voz de mãe carregada de urgência.
A menina nem escutou o chamado, continuou com as perninhas esticando ao céu e dobrando a Terra, enquanto os pensamentos permaneciam nas nuvens.
A avó se levantou e seguiu com suas passadas arrastadas até a amendoeira, precedida por Tarrafa que trotava altivo na sua função de arauto.
— Fia, a mãe tá chamando, ela vai briga cocê — a voz doce reverberou como a brisa que vinha da lagoa. Logo depois, um latido rouco que parecia se manifestar em concordância.
Miriã sentiu um aperto no peito. Não queria que a noite chegasse, nem que a brincadeira terminasse.
— Só mais um pouquinho vovó.
Filó observava a neta com ternura. A avó sabia do peso dos segredos que a criança carregava. Eram os mesmos que Filomena guardava desde pequena.
— Vamo fia. O balanço não vai sair daí!
— Miriã, já está anoitecendo — da cozinha retumbou a angústia do tempo.
"Já está anoitecendo...", essa frase sempre parecia maior que todas as outras.
Enquanto diminuía a velocidade do balanço, observava o céu. A primeira estrela surgiu teimosa aos últimos raios alaranjados que permaneciam apesar da ausência do sol.
Miriã não gostava da noite, apesar das estrelas.
— Estou indo mamãe! — gritou enquanto tocava os pés no chão arrastando as folhas secas e a terra para todo lado. Deu um pequeno salto e correu para casa acompanhada pelo Tarrafa, o guardião da varanda.
— Mãe, deixa o Tarrafa dormir comigo?
— Isso de novo, Miriã? Cachorro dentro de casa? Nem pensar!
— Deixa mãe... — a criança insistiu, nada melhor que um guardião para guardar o seu quarto.
O tum tum tum retumbava forte no batente da porta da cozinha. Tarrafa também tentava convencer a mãe da menina.
Miriã sabia a resposta, mas não custava insistir.
— Não.
Entrou em casa, e a rotina do anoitecer já lhe causava calafrios. Quanto mais se aproximava a hora de dormir, maior era o pavor que a dominava.
Os medos da criança não eram percebidos pelos familiares. Os adultos estavam sempre muito ocupados com os próprios monstros. Ao menos era assim na sua casa. Na verdade, ela não sabia como era nas outras; não conversava sobre os seus medos com ninguém.
Enquanto se preparava para mais uma noite de terror, mantinha-se com os pensamentos no desejo de ter o Tarrafa com ela, alheia às reclamações da mãe sobre o quanto o quarto estava bagunçado. Pensou que um irmão poderia ser a solução.
A criança se deitou, e a cama rangeu com sutileza. Miriã observava a mãe, e antes que cruzasse a porta, falou de supetão:
— Mãe, quero um irmão.
A mãe, que já estava saindo do quarto, meneou a cabeça, não se dando o trabalho de uma resposta.
— Pode ser uma irmã também — a criança sugeriu, enquanto esticava o lençol por cima da cabeça, avaliando o poder do seu escudo. — Tem espaço aqui para um berço.
— Você já é o suficiente — respondeu a mãe, que já estava com a mão no interruptor para apagar a luz. — Boa noite, minha filha.
— Mãe, preciso de um cobertor — o lençol havia sido reprovado como um bom escudo.
— Com esse calor, minha filha?
— Sim, eu preciso.
— Mania de cobertor — resmungou enquanto estendia a coberta sobre a filha. — Com esse calor!
A mãe beijou a filha, e antes que apagasse a luz e saísse, Miriã mais uma vez disse:
— Mãe, deixa a luz acesa até eu dormir.
— Está bem — suspirou.
A menina tapou a cabeça com a coberta. Sentia calor, mas para ela, só assim estava protegida.
— Fia.
— Vó — a menina respondeu enquanto desfazia sua cabana de proteção.
A avó entrou e se sentou na beira da cama da criança.
— Por que a fia dorme tapada até a cabeça?
— Porque sim, vó.
— A fia tem medo de quê?
— De nada — Miriã não sabia como explicar, e nem se deveria.
— Sabe, quando criança, também tinha medo da noite.
A menina ouvia com atenção, apesar do estranhamento em tentar imaginar que a avó um dia fora criança. Ela sempre tinha a sensação de que os velhos nasciam grandes.
— Com o tempo, descobri que não precisa ter medo.
"Como não precisa ter medo…?", a criança retrucava em seus pensamentos.
— Ouvia passos pela casa, e às vezes meu corpo ficava parado e eu não conseguia mexer nem meu dedinho do pé.
A menina sentiu a boca secar com o relato da avó. Era igual ao que acontecia com ela, mas não sabia como explicar seu medo, e isso a calava. Mas as palavras, alheias à sua vontade, começaram a saltar desordenadas de sua boca:
— Tenho medo... assim comigo... acontece, tenho medo — a menina deu batidinhas na testa para ordenar as ideias, respirou fundo e retomou a conversa: — É assim que acontece comigo, vovó. E como você não sentia medo?
A avó riu com os lábios grudados, o "hum hum hum" abafado, carregado de sabedoria.
— Ocê tem medo dos nossos vizinhos?
— São eles? — a criança questionou com os olhos arregalados, tirando um riso solto da avó.
— Acho que não falei direito, criança — a avó a acolheu deslizando os dedos calejados pelos cabelos ondulados da menina. — Eu disse que são como nós. Nossos vizinhos são próximos, mas moram noutra casa; os que ouvimos, são como se morassem aqui, mas estão longe. Mas às vezes conseguimos chegar perto.
A criança sentia-se cada vez mais confusa, mas as palavras, agora sem amarras, escorregavam de seus lábios:
— Eu tenho medo deles vovó. São muitos que entram aqui em casa de noite — desabafou assustada, puxando a coberta na altura do nariz, com os olhos arregalados, como se revivesse os medos de todas as noites.
O "hum hum hum" abafado reverberou com carinho.
— Não tenha medo. Você só vai para outro mundo fia, os baruio que escuta é a vida acontecendo lá.
— Todo mundo vai pra lá? Você vai?
— Não sei se todo mundo vai. Nunca conversei sobre isso com ninguém — hum hum hum. — Mas o Tarrafa vai, encontro ele sempre. Não sinta medo.
— O Tarrafa? — a criança riu com vontade. — Se ele vai, deve ser bom. Vou tentar vovó.
A avó beijou a testa da criança e se levantou.
— Benção vó.
— Deus te abençoe fia.
Miriã abriu os olhos. A escuridão dominava o quarto. Alguém da família esqueceu de deixar uma das luzes acesa.
Com o coração disparado, ela se escondeu debaixo do seu escudo.
Não havia o zumbido da geladeira. O silêncio só dava chance para as gotas que caíam em um ritmo hipnótico na pia da cozinha. Aos poucos ela se concentrou no som úmido da lagoa, e acalmou-se.
"Você só vai para outro mundo fia, os baruio que escuta é a vida acontecendo lá..."
A lembrança das palavras da avó surgiu tão vívida que a escutava em sua mente. O coração da garota voltou a disparar, mas ela buscou a calma no ir e vir das ondas do lado de fora.
— Eu não preciso ter medo.
— Eu não preciso ter medo.
— Eu não preciso ter medo.
Sussurrou repetidas vezes, como se fosse um mantra.
O coração se acalmou, e, quando o sono estava por chegar, sentiu um baque abdominal, em um lampejo de sonho em que caía do balanço. O coração voltou a disparar. Abriu os olhos e o silêncio engolia o quarto. Até as gotas da torneira se renderam ao sono, e ela ainda permanecia acordada.
Mas as ondas da lagoa ainda estavam lá. Sempre estavam.
Ela voltou a se concentrar nas ondas. Lembrou do último passeio de barco com o pai, que remava sem pressa, deslizando na superfície tranquila da água.
No ritmo do caturro do barco, seu pequeno corpo estava mais leve, e então começou a sentir vibrações sutis, que não a assustavam.
Primeiro os pés.
Depois as mãos.
Depois tudo.
Um formigamento percorreu sua espinha, espalhando-se pelos braços e pernas. A vibração tornou-se mais intensa, como se correntes elétricas cruzassem seu corpo, zunindo como uma estação de alta voltagem. Em sua mente um mantra se repetia:
"Eu não preciso ter medo".
"Eu não preciso ter medo".
"Eu não preciso ter medo".
Seu corpo inflou como um balão, e sentiu como se flutuasse. Os pensamentos se esvaíram. O medo não a habitava mais.
A escuridão começou a ser preenchida por pequenos pontos luminosos, e, quando Miriã se deu conta, estava entre as estrelas. Movimentava-se com leveza, tal qual os dias de banho na lagoa. Deslumbrava-se com o azul profundo, salpicado de pontos que cintilavam em uma harmonia silenciosa. Ela sabia que não era apenas um sonho.
Aos poucos, o silêncio passou a ser preenchido por um som ritmado e constante, que vinha de longe, como se fosse um tambor. Ecoava pelo espaço, ficando cada vez mais próximo.
A menina procurava ao redor, mas não via nada além das estrelas, apenas ouvia.
Tum. Tum. Tum.
Quando o som ficou próximo de Miriã, tudo ao redor transformou-se em um clarão branco, como se houvesse mais estrelas que firmamento. Então despencou em um tobogã que mesclava a luz e sua ausência, em feixes velozes e ascendentes.
Tum. Tum. Tum.
O baque seco no estômago foi como um puxão violento. O mundo girou. Quando parou, ela estava de pé no quarto iluminado. O ar tremulava ao redor como se fosse líquido.
Tum. Tum. Tum.
— Tarrafa!
O cachorro estava ali, a cauda chicoteando o chão. Os olhos brilhavam, e na boca ele segurava uma bolinha que ela nunca tinha visto antes.
— Como entrou aqui?
Tum tum tum.
Antes que ela tivesse tempo de dúvidas, observou que havia alguém em sua cama. Parecia feito de cera, imóvel, sem alma. O medo a invadiu e ela sentiu um forte puxão abdominal.
Abriu os olhos.
Com o coração em descompasso, deu-se conta de que o corpo sem vida era o seu próprio corpo, e um som explodiu de sua garganta, sem freio, quebrando o silêncio da madrugada.
— Mãe! — gritou a criança, fazendo sua voz ecoar pela casa.