Desiderium
Navegar por texto

Desiderium. Você já sentiu?
Antes dos dez anos eu descobri os equinócios. Não o nome, e sim o que cada um deles despertava em mim.
A primeira casa em que morei tinha uma escada na área externa que levava para um cômodo onde se guardava de tudo, inclusive a maioria dos meus brinquedos. Quando brincar passava a ser substituído pelo contemplar do fim da tarde rosado, eu sabia que algo tinha mudado. Era o outono.
Eu ficava sentada no último degrau da escada, até o frio e o declinar do astro anunciarem a noite. Quanto mais próximo era o anoitecer, maior era o sentimento sem nome.
Era a presença da ausência. Mas era a ausência do quê? De quem?
Essa pergunta me guiou pela vida.
“À nossa volta já começa a esfriar,
Georg Trakl – Crepúsculo de Outono. Tradução de João Barrento
As nuvens deslizam ao longe agora.
A pergunta muito tempo não vai durar,
E ninguém nos guiará noite fora.”
Tarde após tarde eu voltava na esperança de encontrar o que me faltava. Não era um sentimento ruim. Era sempre um quase. Quase doce. Quase azedo.
Mas, em contraposição ao agridoce do crepúsculo de outono, os ponteiros cegos do tempo avançavam em direção ao destino que trazia amargor: a noite com suas sombras e sons.
No entanto, assim como as nuvens, os ponteiros cegos e todo o expressionismo de Trakl, o tempo passou e a escada deixou de existir. A noite não era mais amarga. Porém a presença da ausência nunca se foi, e ela passou a se apresentar de outras formas.
“And although my eyes were open
Procol Harum – A Whiter Shade of Pale
They might have just as well've been closed”
Como na enigmática A Whiter Shade of Pale. Talvez porque ela diga o que eu nunca soube dizer: talvez fosse delírio, talvez não. De olhos abertos ou fechados, sempre lá, a presença da ausência.
É provável que a sua infância também tivesse uma escada. E talvez, como eu, um dia você tenha deixado de subir nela. Mas se você sentia a presença da ausência, ela certamente permanece em você, embora a vida tenha tentado afastá-la.
Enchemo-nos de objetivos e conquistas profissionais. Abalamo-nos pelos amores frívolos. Geramos vida que nos consumiu de deveres ainda que nos abastecesse de amor.
Entretanto a tragédia expressionista que nos coube viver nos obrigou a desacelerar o tempo. E a presença da ausência ressurgiu em nossa alma, cada um à sua maneira.
A finitude ameaçadora nos levou ao questionamento do que era realmente importante. O que estávamos deixando de lado quando não buscávamos compreender a presença da ausência que nos acompanha desde a tenra infância?
Era o outono voltando em 2020.
E a escada da infância não existia mais. A presença da ausência se misturava à angústia da finitude sem luto. E, como uma água-viva em um oceano tempestuoso, ficamos à mercê de para onde as correntezas nos levariam.
“Fall back into place
Beach House – Space Song
Fall back into place”
Se você está lendo, é porque sobreviveu. Ou ainda está tentando. Tentando voltar ao seu devido lugar como nos intima a canção Space Song.
Configuramo-nos como a Turritopsis, a água-viva eterna, que, diante do perigo, volta no tempo, desfragmenta sua existência e se resume ao pólipo inicial. Bagunçamos nossas memórias, nossos sentimentos e nossos valores.
Buscamos nossas escadas. Talvez você tenha encontrado a sua. Talvez não.
Eu encontrei a minha na escuridão noturna.
No silêncio da noite. No silêncio das notícias, quando a tela enfim se apagava e os números do dia deixavam de existir por algumas horas.
Talvez o céu noturno tenha sido o único lugar que pertencia a todos. Estava a um inclinar de cabeça.
Trakl entregava à noite as suas dores. Eu fiz o caminho inverso: deixei que ela me acolhesse. Soltei a mão do poeta do crepúsculo e me voltei para aquele que ele próprio admirava, Novalis, para quem a noite não era abismo. Era abrigo.
E, impelida pelos tenebrosos oceanos em que não fomos feitos para navegar muito longe, só me restava olhar para o céu cada vez que uma onda me deixava respirar. Compreendi que é na escuridão que as estrelas se apresentam exibindo sua beleza e a nossa direção.
E esse foi o quase mais quase a que cheguei. Era um quase mais doce que azedo.
Doce pelas estrelas. Azedo por não compreender o desenho que os antigos denominaram: sidera. Compreender o sidera me traria o considerare. Mas eu só, desiderare.
Assim foi por quatro anos.
Pensei... refleti.
E do agridoce, ficou o doce.
E dos astros, enfim,
o Considerare.
Considerei, assim, escrever.
Coloquei horário. Disciplina. Estudo.
Escrevi? Escrevi! Escrevi...
Como Novalis, encontrando na noite a comunhão com o cosmo, sempre às madrugadas, na escuridão, encarando a presença da ausência. Escutando-a. Decifrando-a.
Não sei ao certo o momento em que descobri o nome dos dias que marcavam o equilíbrio da Terra: o equinócio — quando a noite e o dia são iguais. Mas sei que recentemente descobri que existe nome para a presença da ausência.
Quando olhei para os astros buscando a direção, eu estava reproduzindo algo que desde o princípio a humanidade faz. Mas não é só direção. Na sua imensidão, a humanidade sempre encontrou o alívio de uma saudade sem nome, a presença da ausência, que o latim chamou de Desiderium.
A menina da escada nunca esteve sozinha.
Talvez as sombras da noite fossem só a presença da saudade.
Desiderium não resolve a ausência; contudo, dá sentido a ela.
“Lançada pelas ondas, impelida pelos tenebrosos oceanos em que não fomos feitos para navegar muito longe.”
Essa frase nasceu dos dois começos de livro que mais me marcaram: A Curva do Sonho e O Chamado de Cthulhu. Nela cabe a inspiração do que escrevo: a esperança de Le Guin, sem negar o terror de Lovecraft.
Pois a vida de quem sente o Desiderium é assim.
É por isso que precisamos ser como as águas-vivas, que bailam com graça no oceano plácido, e que sabem que nos tenebrosos precisam se deixar levar.
Mas deixar-se levar não é desistir.
A água-viva não tem cérebro; ela não precisa, pois sente o oceano com o corpo inteiro. Não se debate contra a corrente: percebe-a e segue; porém ela não se entrega. Ainda que ela não tenha como lutar contra o oceano tenebroso, ela tem seus tentáculos urticantes, que, quanto mais tenebroso o oceano, mais ela movimenta.
Pensar e refletir é tal qual estender os tentáculos. É recusar a condição imposta pelo ambiente. É resistir disseminando o pensamento. Lance suas ideias e pensamentos como as águas-vivas lançam seu veneno.
Provoque, enquanto olha para as estrelas.
E é isso que pretendo com o Substack. Encontrar os que sentem a presença da ausência. Os que, assim como eu, se dividem entre a noite acolhedora de Novalis e a devastada de Trakl. E que desejam pensar, refletir. Recusar. Resistir!
Por lá, a busca vai ganhar muitas formas. Contos, crônicas e ensaios, todos nascidos nas madrugadas. Resenhas dos livros que me fazem pensar. Aqui no site terão apenas alguns desses escritos, não deixe de acessar o Substack. E, para quem se inscrever, contos inéditos e trechos dos livros que eu estiver escrevendo.
E a Escrivaninha, um canto para quem escreve ou sente vontade de escrever. Por lá compartilharei minhas descobertas, algumas dicas e métodos que eu fui aprendendo nestes últimos anos.
Toda semana, um novo e-mail chegará até você.
Então me dê a sua mão. Sente-se comigo no último degrau da escada. Vamos contemplar as estrelas, estender os nossos tentáculos (e, se for preciso, o nosso veneno) e seguir buscando, juntos, o nosso Desiderium.
P.S.: Se você tem interesse no conteúdo da Escrivaninha, acesse aqui e ative as notificações para receber as newsletters dessa seção.