Desiderium
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Meia-noite e Um
Muito serão os “May the 4th be with you”, e muitos já se foram. Mas, desde que venho me dedicando à escrita, só haverá hoje.
A primeira coisa que preciso deixar muito clara — antes de qualquer outra — é que, quando se trata de Star Wars, eu sou profundamente emocional.
Não sou crítica de roteiros. Passo pano para a Disney.
“Ahhh... mas a Disney destruiu a franquia.”
Pode ser.
Mas quando eu vejo as letras amarelas subindo a tela em perspectiva, acompanhadas do acorde explosivo de metais — trompetes e trompas tocando com fortíssimo impacto — minha alma é tomada.
Me julguem.
Mas acho que posso explicar.
Fui uma fã solitária por muitos anos.
Nasci em 1980. O primeiro filme já havia sido lançado, e O Império Contra-Ataca estreava naquele ano. O Retorno de Jedi chegaria em 1983, a 52 dias de eu completar três anos de idade.
Não consigo me lembrar de como assisti ao primeiro filme. Certamente na TV aberta. Meus pais não eram fãs a ponto de ir ao cinema, ainda mais com uma criança pequena. E só tivemos videocassete no início dos anos 90.
Quem conhecia os filmes, ainda que sem paixão, era meu irmão. E foi ali que começaram as primeiras tentativas de quebrar a magia.
Acredito que ele queria aproveitar o meu interesse para me ensinar o básico da astrofísica, e muito cedo fui informada de que o som não se propaga no espaço. Mas quem se importa? Eu dava de ombros.
No entanto, o fato mais doloroso veio depois, quando me contou que as espaçonaves eram maquetes e, em sua maioria, de papel.
Confesso: depois disso, descobrir que Papai Noel não existia foi fichinha.
Porém, anos depois, quando descobri que a Millennium Falcon existia em tamanho real, construída para as filmagens, me recuperei.
Mesmo que feita de fibra e parafusos, ela existia.
E isso era o suficiente para aquela menina que sonhava em ser uma rebelde em outras galáxias.
Enquanto minhas amigas tinham um ideal de princesa, o meu era outro... era a Leia Organa.
Talvez meu ideal de “príncipe” não fosse dos melhores. Mas, pensando bem, muito melhor um contrabandista do que um típico playboy de conto de fadas.
Em 1999, A Ameaça Fantasma é lançada.
E lá estava eu: meia-noite e um — o que depois virou tradição em todos os lançamentos.
Naquela noite, eu me senti parte de algo pela primeira vez. Eu não estava só. Existiam outros, e muito mais apaixonados, a ponto de se vestirem como os personagens. Aquele movimento era novidade para mim.
Naquele dia eu soube o que era pertencer.
Lembro-me de pedir a meu pai que me buscasse no cinema às três da manhã, em outra cidade (já que a minha não tinha cinema).
Ele questionou, claro.
Mas eu expliquei o quanto era importante. Era um momento histórico.
E ele foi.
E essa é uma das lembranças mais doces que tenho do meu pai.
Em 2002, no lançamento de O Ataque dos Clones, eu não pude ir.
O mesmo pai que havia me buscado naquela madrugada agora precisava da nossa atenção.
Estava doente, e faleceu dias após a estreia.
Em 2005, A Vingança dos Sith chegou aos cinemas, e eu tinha um bebezinho de cinco meses.
Aliás, quase se chamou Anakin.
Não tive coragem para tanto.
Quem diria que o maior vilão de todos os tempos seria compreendido pelas gerações futuras?
Mas, em 2015, eu já não era mãe de primeira viagem.
E me dava o direito às minhas loucuras.
Não fui ao lançamento, mas fui dias depois em uma sessão durante a tarde, com a pequenina de dois meses, devidamente paramentada como uma padawan.
Olhares de julgamento, mil.
Mas ela se comportou melhor que muito marmanjo.
Amamentei no cinema.
Os demais lançamentos?
Em todos eu estava lá: meia-noite e um.
Star Wars reúne seus fãs numa espécie de egrégora, que, mesmo reclamando, está sempre lá.
Sempre lá.
Trago toda a carga filosófica da obra para a minha vida.
E agora, dedicando-me à escrita, mais do que nunca, entre um
“Faça ou não faça. Tentativa não há.”
e outro
“Seu foco determina sua realidade.”
...eu acredito na Força.
E desejo que ela esteja com você.
Hoje e sempre,
A força em ti esteja,
O medo nunca.
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