Desiderium
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Você é um bicho, Fabiano!
Resenha Vidas Secas - Graciliano Ramos
Escrever sobre Vidas Secas, um clássico, não é fácil — e tende ao clichê. Mas vou me aventurar, pois está entre as leituras mais marcantes da minha vida. E, por favor, não me privem dos spoilers. Afinal, são mais de 80 anos!
Lembro-me da obra sendo citada durante os anos do ensino médio, mas não a li. Talvez tenha lido alguns trechos de “Baleia” e, confesso, eu evitava lê-la por completo.
“É muito sofrimento”, eu dizia.
Hoje sei que era só imaturidade.
Não vou entrar no mérito de quais livros devem ou não ser enfiados goela abaixo na juventude — não tenho essa competência —, mas, dentro das condições da minha adolescência, eu jamais seria capaz de entender Fabiano.
Agora, quando me proponho a escrever, não posso mais fugir desse clássico. E, depois de algumas décadas, Fabiano já é compreensível para mim.
Foi em um curso sobre contos que tive meu primeiro contato com “Baleia” de forma integral e com uma consciência madura, tanto em relação às minhas experiências quanto à escrita. E ainda assim tive dificuldade de compreender por que aquele texto era tão reverenciado. Eu só conseguia sentir tristeza e raiva.
“Como assim? Quem seria capaz de tal atrocidade?”
Ainda incapaz de me conectar com Fabiano, só me compadecia de Baleia. Nela residem todas as minhas companheiras caninas: Lady, Charlote, Preta… e agora Marola, com seus 15 anos.
Mas então li Vidas Secas por inteiro, e finalmente me conectei com Fabiano.
Sim, senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
Para mim, não tem como essa história não ser sobre Fabiano e Baleia.
Chamar alguém de bicho, quase sempre, é uma tentativa de desumanização. Mas, no sertão de Graciliano, “ser bicho” é sinônimo de resistência, instinto, sobrevivência.
E é doce perceber que, mesmo dentro de um contexto de tanta escassez, é o bicho que traz o respiro daquelas vidas secas. É no bater do rabo fino de Baleia que ela humaniza os humanos tão sofridos.
Mesmo na aridez do coração calejado de Fabiano — que por vezes afastava a cachorra — há o compasso do rabo sustentando um amor grato. Não pelos ossos que lhe sobravam, mas por um amor que a família sabia sentir.
Um amor bruto, que se revelou da forma mais triste. Um amor que não quer ver o sofrimento. Um amor que se concretiza na morte piedosa daquela que foi fiel ao vaqueiro até o fim.
Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O amor por Baleia era tão grande que ela não se ausentava da família. Ela continuava lá, ecoando nas lembranças de cada um.
Mas o coração grosso, como um cururu, enchia-se com a lembrança da cadela.
Assim como o meu se enche das lembranças das minhas que já se foram. E confesso que sofro antecipadamente por saber que em breve a mais companheira de todas me deixará.
A vida foi leve comigo. Meu coração é mais fino. As dificuldades não se comparam às de Fabiano. E eu posso pegar a minha bichinha no colo e agradecer, todos os dias, pelo seu amor.
...sinhá Vitória lembrou-se da cachorra Baleia, chorou, mas estava invisível e ninguém percebeu o choro.
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