Desiderium

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Crônica

Você sabe o que significa Discernimento?

O dedo na ferida de Devoradores de Estrelas: amnésia é involuntária, negação é escolha.

Você já acordou sem saber qual é o dia da semana?
Isso é comum, especialmente aos finais de semana; é quase uma culpa por não precisar se preocupar.
Mas eu já acordei sem saber o dia da semana e sem saber quem eu era.

Foram segundos. A claridade da manhã entrava pela cortina, o quarto fazia sentido, a janela fazia sentido, a vida lá fora fazia sentido. O que não fazia sentido era compreender quem eu era e o que teria para aquele dia.

Agora imagine acordar sem saber quem é, e com um robô composto de quase meia dúzia de braços que retiram um cano de sua garganta enquanto te questiona: Quanto é 2+2?

Nessa situação não saberia nem o que é dois.

Mas tudo isso não dura só segundos. Você enfim se livra dos aparatos que te imobilizavam e dos braços falantes e, quando encontra a janela, ela na verdade é uma escotilha que te apresenta ao espaço.

E então ele consegue formular a pergunta: quem eu sou?

Esse desmemoriado é o Grace, de Devoradores de Estrelas.

Cena do filme Devoradores de Estrelas

Ele não sabe quem ele foi, não sabe o que está fazendo ali, não sabe para onde vai e muito menos o que ele precisa fazer quando enfim chegar e, para piorar, ele não tem para quem perguntar.

É provável que já tenha se sentido assim algumas vezes na sua vida, e você deve estar se sentindo mais tranquilo em pensar:
“Eu ao menos tive para quem perguntar”.

E adiantou a resposta?

Quando Grace enfim compreendeu, por si só, com lembranças fragmentadas do seu passado, ele entrou na amnésia por escolha: a negação.

Quando assisti ao filme, ver o personagem descobrindo o óbvio e negando me fez deslizar pela cadeira do cinema. Eu certamente estava tentando me esconder de mim mesma e das inúmeras vezes em que fiz a mesma coisa.

E às vezes nem adianta ter a quem perguntar; existem respostas que só estão dentro da gente.

Assim como Grace, eu já passei por momentos sem saber quem eu era, o que estava fazendo, para onde eu deveria ir e muito menos o que eu precisava fazer quando enfim chegasse — sabe lá onde.

E foram esses questionamento que me trouxeram para a escrita.

Não sei se você já parou para pensar sobre isso, mas vivenciamos esse ciclo diversas vezes em nossa vida. Quando perdidos, não adianta ter a quem perguntar, pois, diante de qualquer resposta, negaremos o óbvio.

Mas se eu te perguntar quantas vezes você já viu isso acontecer com pessoas ao seu redor, você terá uma lista de histórias para contar, não é mesmo?

Quem nunca?

Afinal, é muito mais fácil assistir de camarote ao equívoco alheio.

Grace, ao longo do filme passou por vários momentos de questionamento. O primeiro ele resolveu com a ciência, o segundo com a amizade e o último com a esperança.

Eu também já passei por diversos ciclos como esses, alguns que me consumiram sem que eu sequer enxergasse a obviedade dos fatos, outros em que eu consegui encontrar o caminho.

E entender que está perdido é o primeiro passo para o discernimento.

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