Desiderium
Navegar por texto
O futuro que só parece distopia.
E se não fosse a Santa Padroeira, e sim a Igreja e todas as religiões?
Existe um termo na escrita que chamamos de subtexto. Você conhece?
Simplificando, é o dito sem ter sido escrito. É a minúcia que faz as pessoas terem interpretações diferentes. Mas certamente é o que há de mais rico em uma obra.
Nos últimos dias um subtexto da vida real está sendo chamado de mentira por alguns e de “apito de cachorro” — mensagem que só um grupo é capaz de compreender — por outros.
Mas, perante os acontecimentos, gostaria de apontar alguns fatos que não são do conhecimento de todos, e sobre os quais tenho me debruçado, pois fazem parte do universo ficcional que estou construindo: o fundamentalismo religioso no crime.
Há, no Rio de Janeiro, uma facção criminosa que se intitula “Exército do Deus Vivo”, “Soldados de Jesus” e “Tropa do Arão” — Arão em referência ao chefão que se autointitula como tal — e sabe o que eles picham em toda a comunidade denominada “Complexo de Israel”?
“Jesus é o dono do lugar”. Há de se destacar a mera semelhança com “Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
E diante dessa “propriedade”, terreiros foram destruídos, religiões de matriz africana foram proibidas e, pasmem, em julho de 2024, os padres e seminaristas de paróquias católicas com atuação há mais de 90 anos sofreram um ultimato: não poderiam mais rezar suas missas, nem realizar seus trabalhos sociais na comunidade.
Devido à força da religião, as missas voltaram, porém com a determinação de manter as portas fechadas para que os cânticos e louvores não fossem ouvidos. Os terreiros não tiveram essa sorte.
Moradores católicos relatam que não podem circular usando roupas ou acessórios com imagens de Nossa Senhora ou de santos.
No Disque 100 — número disponibilizado pelo Governo Federal para receber denúncias de intolerância religiosa no Brasil —, os registros saltaram de 615 em 2018 para 1.418 em 2023. As violações registradas no mesmo período subiram de 624 para 2.124. As vítimas são, em sua maioria — cerca de 90% —, religiões de matriz africana.
O que apresento são dados. Não há subtexto.
Sabendo disso, agora posso te contar que um dos maiores objetivos dessa facção é a tomada da Igreja da Penha, por motivos estratégicos e simbólicos. Esse último, sob o meu ponto de vista, o mais perigoso. Para o projeto “narcopentecostal” da facção, tomar o principal santuário católico do Complexo da Penha seria o símbolo máximo de sua autodeclarada “Guerra Santa”.
Parece cenário de distopia? Ainda não é.
No universo ficcional que estou escrevendo, o estopim social dos acontecimentos é a concretização da tomada e destruição da Igreja da Penha, resultando, após a perda de controle do Estado, em um Rio de Janeiro designado como “Instaurado”.
Em VAGA - Uma Viagem, ninguém conta o que aconteceu na Igreja da Penha. Não ainda. O que se vê são as consequências: três pessoas que mal se conhecem, presas numa casa de veraneio em São Pedro da Aldeia. A casa é de Lisa. Augustus e Jota estão ali porque não têm para onde voltar: o Rio está fechado.
E, em Dharma Punk — com lançamento previsto para dezembro de 2026 —, o assunto é abordado diretamente. Em 2121, no Rio de Janeiro Instaurado, as ruínas da Igreja da Penha são festejadas como um marco de sua maior conquista: “Tranquilidade para todas as mentes”. Mas, na verdade, essa tranquilidade só foi conquistada por meio de implantes que regulam as emoções e inibem os sonhos.
Você consegue imaginar um Rio de Janeiro vigiado onde os cariocas são apáticos? Sem futebol e sem religião. Eles nem sabem que isso um dia existiu. Exceto Elisa, bisneta de Lisa — personagem de VAGA — que herdou um baú.
A ficção científica — um dos gêneros menos lidos em nosso país — existe não como um oráculo, mas como o fruto da observação do presente e das ameaças sociais que se desdobram diante de nós. Ela serve para nos fazer refletir sobre o hoje com a projeção do amanhã.
Escolhi o darma, conceito milenar descrito no Bhagavad Gita, como fio condutor de toda a história. E não foi por acaso que busquei uma filosofia fora da tradição cristã: quis mostrar que, independentemente da fé de cada um, ou mesmo da ausência dela, o que nos une é um propósito existencial. O dever de sermos plenamente quem somos e, com isso, contribuirmos com o cosmo.
Todo o universo de VAGA tem como tema principal a viagem no tempo e as suas consequências, e, como escritora otimista que sou, não deixarei de construir aventuras que nos inspirem a confiar em um futuro hopepunk em vez de cyberpunk.
Então não estamos no princípio do fim?
Observar a fé sendo transformada em capital político em nosso país, seja pela dominação, seja pelo medo, me deixa profundamente consternada. A fé não deveria ser pauta em um país laico. Deveríamos nos preocupar com propostas concretas, mas, mais uma vez, o voto gira em torno do temor.
Cada lado com os seus.
Quero acreditar que celebraremos o evento da democracia, que deixaremos de nos acostumar com os absurdos, que todo credo, toda raça e toda sexualidade serão respeitados.
De minha parte, continuarei a descrever os perigos, com a esperança de quem acredita no ser humano.
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