Desiderium
Navegar por texto
Homens só leem homens?
Segundo o levantamento da Nielsen BookData, apenas 19% dos leitores das 20 autoras de ficção mais vendidas são homens, enquanto mulheres apresentam escolhas mais equilibradas entre autores e autoras.
Mas será mesmo uma questão de preferência?
Quando um dado estatístico oferece uma resposta simples demais para um fenômeno complexo, eu desconfio.
Além de escritora, sou analista de dados, e te convido: vamos pensar em conjunto?
Oferta não é escolha: homens leem homens porque homens escrevem mais?
Quando dizemos que “homens leem mais homens”, a pergunta correta não deveria ser o que eles preferem, mas o que está disponível?
Historicamente, e ainda hoje, homens escrevem e publicam mais.
Eles ocupam maior espaço nos catálogos, nas listas de prestígio e nas indicações escolares.
Escolher pressupõe um campo minimamente equilibrado, mas o que temos é um mercado moldado por séculos de produção majoritariamente masculina.
Não é que homens escolham homens por rejeição às mulheres.
É que há mais homens para serem escolhidos.
Mulheres leem de tudo porque leem mais.
O segundo dado costuma ser apresentado como contraponto moral:
“Mulheres são mais equilibradas em suas escolhas.”
Mas isso não é traço psicológico. É efeito estatístico do volume.
As mulheres leem mais livros por ano e por mais anos ao longo da vida. E, diante do volume, transitam entre gêneros e estilos com mais frequência.
Além disso, quanto mais lemos — independente de gênero —, menos necessitamos de rótulos, validações externas ou identidades fixas. A leitura contínua produz ecletismo.
Porém há de se destacar um movimento silencioso que acontece com muitas leitoras experientes: depois de anos consumindo um cânone masculino, surge a pergunta: onde estão as histórias que falam de mim?
A busca por autoras não exclui autores homens.
Ela corrige uma ausência histórica.
A pergunta que precisamos fazer: por que homens escrevem mais?
Se mulheres são maioria entre leitores, sustentam o mercado editorial e demonstram abertura estética, por que ainda há menos mulheres escrevendo?
É aqui que Virginia Woolf entra.
E não como referência literária, mas como diagnóstico estrutural.
Em Um teto todo seu, Woolf afirma algo simples e devastador:
para uma mulher ser escritora, talento não basta.
Ela precisa de independência financeira, um espaço próprio, silêncio e tempo contínuo.
O ponto central de Woolf não é estético.
É material.
Sem dinheiro, sem tempo dedicado e com interrupções constantes, a escrita se torna fragmentada, ocasional e precária.
Muitas mulheres escrevem.
Poucas conseguem construir uma obra ao longo da vida.
Cem anos depois, o problema persiste. Só mudou de forma.
Hoje as mulheres trabalham, publicam, produzem.
Mas também acumulam: cuidado com a casa, gestão emocional de toda uma família e uma presença financeira que garante a sobrevivência de grande parte dos lares.
E, como consequência, a escrita é empurrada para as margens do dia:
antes de todos acordarem, depois de todos dormirem, nos intervalos da exaustão.
Não é falta de vocação.
É falta de condições de permanência.
O teto que ainda não existe.
Para eu conseguir escrever, antes de iniciar o trabalho que me garante, paradoxalmente, ter “um teto todo meu”, preciso madrugar enquanto todos da família dormem.
Ao longo do dia, sou escritora, profissional, mãe, esposa, responsável pelo bom andamento de um lar... uma grande gerente de minúcias invisíveis.
Chego ao fim do dia exausta, lutando para que ainda me reste algum tempo para ler e, enfim, cair morta de sono.
Durmo menos de oito horas.
Acordo.
Escrevo.
E tudo começa de novo.
Isso não é dedicação.
É sacrifício.
E me pergunto isso muitas vezes: por quê?
Porque só escrevendo eu me sinto eu por mim mesma, sem ser reflexo dos desejos, das demandas e necessidades de outros.
E tudo isso eu digo a partir de uma posição privilegiada: sou branca, tenho alto nível de escolaridade, um trabalho digno, uma família estruturada.
Uma condição minoritária em um país desigual e machista! E não adianta negar. Basta acompanhar os noticiários.
Mas estou cansada do feminismo simplista, do “nós contra eles”.
Isso não muda uma estrutura que já era denunciada há cem anos por Virginia Woolf.
Precisamos olhar para a causa raiz.
Eu não quero ser lida porque sou mulher.
Quero ser lida porque tive as mesmas condições de tranquilidade, silêncio e continuidade para chegar às prateleiras de uma livraria.
Talvez eu não veja isso plenamente acontecer.
Mas quero ajudar a construir esse chão para quem vem depois.
Para que um teto todo seu deixe de ser ensaio...
E passe a ser realidade.
Obrigada por ler! No Substack você encontrará mais! Inscreva-se gratuitamente por lá e eu te enviarei todas as novidades ☺️.