Desiderium

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Ensaio

Inveja. O pecado de que todos são acometidos, mas que ninguém comete.

A literatura é um lago. Mas antes de falar de rios e nascentes, precisamos falar do que contamina essa água: a inveja.

Karnal define a inveja como a tristeza pela felicidade do outro. Ele ressalta que esse sentimento é muito diferente da cobiça; embora, muitas vezes, ambos sejam confundidos. A cobiça é o desejo de ter o que o outro tem e, quando bem trabalhada, pode nos impulsionar.

Mas ele também levanta outra questão e, com humor e um tom de deboche — adoro —, afirma:
“Todos se dizem invejados, mas ninguém é invejoso…”

Mas por que falar de inveja? Você não é escritora?

Pois é. Eis aí uma pauta recorrente em todas as artes — e crítica — entre escritores. Tão comentada no meio da escrita que Anne Lamott, em Palavra por Palavra, dedica um capítulo inteiro ao tema.

Ela confessa sentimentos dos mais vis e, isso me fez sentir medo de ter alguém no meu convívio com tais sentimentos. Mas, passado o choque inicial, veio a pergunta inevitável: será que eu também não os carrego?

E, a menos que estejam escondidos nas profundezas das minhas vergonhas mais íntimas, acredito estar limpa.

Certeza absoluta? … só um terapeuta poderia dar.

Ao longo de todo o livro, percebi que Lamott abusa das hipérboles. No capítulo da inveja, ela se supera. Ainda assim, entendo que a intenção dela é apaziguar o coração do escritor:
“Olha, eu sou péssima! Você nem é tão ruim assim…”

Mas ainda que simulando uma amargura hiperbólica, ela cita Jean Rhys:
“Toda a escrita é um enorme lago. Existem grandes rios que alimentam o lago, como Tolstói ou Dostoiévski. E depois há meros filetes, como Jean Rhys — aqui ela se coloca na terceira pessoa, exercitando a modéstia, como uma lady. Tudo o que importa é alimentar o lago. Eu não importo. O lago importa. Você deve continuar alimentando o lago.”

Com o lago bem alimentado, todos nós compartilhamos o sucesso. Mas, se o lago secar, morremos todos de sede.

Ter participado do Entupa seu Kindle (2025) com autores nacionais de ficção científica foi uma experiência clara de alimentar o lago. Cada autor era um corpo d'água: alguns volumosos, com muitos leitores e seguidores; eu, uma nascente — escritora iniciante, lançando meu primeiro livro, sem leitores, com poucos seguidores. Ainda assim, eu estava lá. No lago dos grandes rios.

Dos sete pecados capitais, a inveja é o único que todos negam; e nem tentam justificar. Pense na luxúria, na gula ou na avareza: sempre há um “mas quem nunca?”. Porém, quando o pecado é a inveja, a resposta é sempre: “Eu? Nunca!”.

É, sim, um sentimento negativo. E quando falamos em “inveja branca”, só pioramos as coisas, pois nos tornamos invejosos e racistas.

Mantenha-se apenas invejoso.

Mas não deixe de buscar as raízes dos seus sentimentos. Com atenção e honestidade, é possível transformá-los em cobiça, e então, permitir que ela te impulsione.

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